Confira as melhores poesias de Ivone Boechat.
Prece da Criança (Ivone Boechat)
Senhor,
estou muito assustado,
estão nos fazendo medo,
fico até cansado de pensar
um jeito de proibir os adultos
de matar os passarinhos,
de acabar com os rios,
de poluir os mares.
Tudo que o Senhor fez é tão bonito,
até me irrito,
quando vejo guerras dominando alguns lugares.
Quero sonhar
com uma escola feliz,
com professores sorrindo,
e uma nota que dê para passar...
É isto que sempre quis...
Ah! Quero minha família unida,
segurança para brincar na praça,
a imensa graça, de dormir,
sabendo que se há alguém na rua
vai poder voltar.
Amém.
Ficar Velho? (Ivone Boechat)
Ficar velho é
deixar enguiçar
o sonho, o propósito, a capacidade de criar.
Ficar velho é
deixar morrer o pensamento novo
que não para de gritar.
Ficar velho é
correr em sentido contrário
das belezas da vida,
sustentar doendo aquela antiga ferida.
Ficar velho é
entregar os pontos, desistir, calar.
Ficar velho é,
não querer enxergar oportunidades,
tapar o sol com a peneira,
ao invés de recriar o tempo,
seguir em frente,
lutar.
Meu Grito (Ivone Boechat)
Eu posso, sei que posso,
por isso eu vou,
amordaçada, sacrificada,
até calada, sem medo.
Vou sem segredo,
na certeza de ser melhor,
não reclamo,
não tenho nada pra desculpar,
corro na certa, de peito aberto,
retorno sempre que precisar.
Sou como as nuvens,
formo imagens
que se apagam nas ilusões,
grito socorro,
dou mãos ao mundo,
me agasalho
nos teus verões.
Amanhecer (Ivone Boechat)
Levanta a cortina dos teus olhos
Contempla a maravilha do amanhecer
A vida é uma criança,
esperta, bonita, inteligente
Passa correndo, é preciso ver
Acredita, enquanto há tempo:
não existe dor sem alento
nem tristeza tão longe da alegria
quando a luz de cada dia,
acende a vida,
iluminando o amanhecer
Não vacila, toma posse
da imensa alegria de viver.
Caos (Ivone Boechat)
Há um momento na vida
de terror definitivo,
de fracasso tremendo,
de sangrar a ferida.
Nada rende,
não há remendo,
nem consolo,
nem saída;
luta perdida.
A lágrima não significa,
o amor cruza os braços,
a saudade diz que vai,
e fica.
Egoísmo (Ivone Boechat)
Arrasta pelas ruas
suas mágoas e paixões,
diz ao mundo
que são suas
as solidões.
Controla o choro,
ri da alegria
dos que sabem rir.
Carrega no peito
a covardia
de não saber dividir.
Fingimento (Ivone Boechat)
Nunca fui poeta,
fingi que era para sobreviver.
Existe alguma forma mais bonita
de enganar a si mesmo,
brincar de ser profeta,
ser feliz, viver?
Errei?
Sem a menor falsidade,
tenho certeza de que nunca os enganei,
os amigos
fingiram gostar dos meus versos
por solidariedade.
Amor de Pai (Ivone Boechat)
O amor de pai é indiscutível:
mão calejada,
camisa suada,
pressa, canseira,
doação.
O pai é ainda avalista
dos erros na contra-mão.
O amor de pai
é visível:
joelhos dobrados,
prece escondida,
braços abertos,
olhar de ternura,
perdão.
Pai é alguém
muito especial:
produtor, diretor,
ator, figurante
do filme, ao vivo,
em cores,
com o roteiro da vida escrito
nas linhas de sua mão.
Amizade (Ivone Boechat)
A amizade
é o mais belo afluente do amor,
ela ajuda a resolver,
com paciência,
as complicadas equações
da convivência humana.
A amizade
é tão forte quanto o amor,
ela educa o amor,
sinalizando o caminho da coerência,
apontando as veredas da justiça,
controlando os excessos da paixão.
A amizade
é um forte elo que une pessoas
na corrente do querer.
Amizade
é cola divina,
cola demais,
pode doer.
A amizade
tem muito mais juízo que o amor,
quando ele se esgota
e cisma de ir embora,
ela se propõe a ficar,
vigiando o sentimento que sobrou.
Que Mulher é Essa? (Ivone Boechat)
Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada,
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto,
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto,
pronta a perdoar?
Que mulher é essa?
que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão.
Resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.
Sou Mulher (Ivone Boechat)
Sou mulher,
com as aflições e a inspiração do poeta,
o esplendor e a serenidade... das mães!
Sou uma canção de ninar!
Experimentadora dos sabores do tempo...
Estrela da constelação familiar.
Sou letra e música da canção
do mais puro sentimento,
que a mulher é capaz de cultivar.
Sou feita com a síntese
do segredo de amar!
Tenho duas fases: minguante e cheia,
assim como o luar!
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