As Melhores Poesias Selecionadas

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De Tudo Distante Pra Sempre De Mim (Miguel S. Zanirato)

Parcos passos. Fugir de mim para sempre fuga se todos...
Fugindo de tudo para sempre fugir mesmo de mim.
Que estradas são estas, hospedagens para meus sonhos?
Que miragens são aquelas, caminhos para meus olhos?

O além de mim, verso e reverso ou alento de tudo!
Lento em todos para sempre espelhos mesmos de mim.
Saudade. Porque o vento que bate, não te abate?
Saudade. Porque o tempo que desmorona, não te derruba?

Lembranças de mim, alheio e distinto de todos! Teu corpo...
De tudo distante para sempre de mim, uma idealização perdida.
Clave de Sol: Saber criar a estética do teu material, o meu riso alheio.
Quanto a mim, estilo somente? Não! Teu mero esquecimento.

Algo de Arte, Algo de Mim (Miguel S. Zanirato)

Mesmo distante, o som errante do relógio da matriz...
Entoa despertando esperanças do menino que fui aprendiz.
Feitiços que minhas mãos teimam em rabiscar corem...
O passeio para uma manhã de sol maior que meus olhos.

Acreditar na arte que a arte desabona a saudade e a morte
Que a tudo soterra em silêncio e lamento.
Recriar o mundo ou o próprio absurdo das trevas do mundo,
Relevando a natureza mundana ao perdão elevado do esquecimento.

Versos ateus, sonhos de adeus, destino inocente e triste.
Procurar no vento as palavras do abismo e os sentidos da pele,
Triste fugindo indeciso dos próprios passos tão reles.

Nota de Calendário (Miguel S. Zanirato)

Há segunda-feira mesmo que em suas primeiras horas
Ainda gotejem sonhos
E ecoem "bom-dia" por todas as frestas de abraços
Em fins de semanas
Cheios de seus cupins, fuligens e sorrisos.

A goma do terceiro dia
Fantasia cada objeto em seu devido espaço faminto.
Masca o domingo como quem rumina o emprego de estar vivo
Despencando a vida na viscosidade de dedos alheios
Fomentando a morte em notícias do vicioso círculo do medo.

Rumina essa massa, passa a vida, passa vida que passa!
Na doçura do sétimo dia a espessura de um sono de feira.
Zero-hora: horas inteiras. Ao invés do vômito, surge o poema.
Teimosa lesma teimosa, interminável dilema do ponto ao pulso,
O coração em rastros anônimos e sinônimos imperfeitos.

Eu & Você (Miguel S. Zanirato)

Banho aquela moça-pernas de quem balança a imaginação
Que nunca mais trouxe o coração que dança em sim e não.
De versos livres num ventre escravo, esparsos berços.
Olhos de orvalho, aquarela do canto das manhãs,
Calmas e singelas sanhas e manhas
Em seu sorriso de paz.

Todo esse pranto fora sereno mesmo havendo janeiros, setembros,
Dezembros fertilizados em cores de sol
Beijos de destinos que já são cinzas e esquecimento.

Em que paisagem escondestes o adeus dos portos e
A vida? Brilha só tão só saber o que jamais se sabe não viver
O sonho permissível vôo de Ícaro...

Compremos um avião?!...

As Fisgas (Miguel S. Zanirato)

Pedra de gelo gira no copo um corpo - Um ventre de aranha tecendo
O torpe gesto da noite degelando as angústias do lado obscuro
No aceno de ninfas prenhas apenas na sangria de olhares,
Altares entre as folhas vadias que arranham a rigidez das vias.

Naufrágios no piche, mulheres de mulheres cavalgando ilhas,
Drenando a fome sem nome dos que comem neons e fetiche indome.
Sob a forca inerte estirada sobre o caminho, o semáforo abre...
Nobre passagem à solidão. O asco é contínuo, denso em crivos.

Sempre, na embriaguez dos dias, fisgas de calmaria e dor.
O exílio entre paredes, o bolor de gritos sem rumo.
Furor das frases banais aos espelhos das casas em desespero.

Pare!... O odor da carne-de-sombra nos bancos de outros bancos
Olhe!... A sobra de beijos, verbete de bocas trêmulas
Siga!... O desfio de passos que somente a morte tricoteia.

Olhos de Picasso (Sandro Kretus)

Vejo com meus olhos de Picasso
através de um quadro
o descompasso do teu perfeccionismo
Riscos e rabiscos
te desenham na tela nua
Vitrine que reflete teu descaso
Te olho e te vejo em outros braços
Fico a te espiar nesta janela
chorando com meus olhos de Picasso

Almas gêmeas (Sandro Kretus)

Amo-te tanto, que para descrever tal sentimento
Sou capaz de traduzir a palavra mais bela que existe
Só para ficar gravado por um único momento
Dentro do teu coração como um pavão que se exibe

E qual palavra seria mais bonita que a palavra dos anjos?
Pois lhe digo, amada minha, não há palavra mais bonita
Veja aqui tudo que restou ao longo desses anos
Quando traçamos nossos destinos em um único encontro

Somos um do outro, isto é um fato consumado
E mesmo se não tivéssemos nos encontrado neste tempo
Em um outro mundo, em outra vida, teríamos nosso momento

Somo duas almas que se encontram casualmente, eternamente
Somos duas estrelas que dançam em volta do sol, infinitamente
Difícil é quando não te encontro, e se encontro, não te vejo

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